Estefânia BarrosoEstefânia Barroso é professora de Português e de Educação Especial

 

Aqui há uns tempos, durante um jantar de amigas, de entre vários momentos divertidos e hilariantes, tivemos direito a um (mais um) que deu azo a muitas risadas, mas que me fez pensar que, efectivamente, existem enormes diferenças entre os vários países da Europa. A amiga em questão, que vive na Suíça, narrava a sua odisseia para conseguir aceder ao desejo da sua filha, que mais não era do que comprar um peixe! Contava como ao chegar à primeira loja de animais se tinha dirigido à senhora e explicado que desejava comprar um peixe. Simpaticamente lhe foi perguntado se já possuía aquário. Num primeiro momento, a minha amiga achou a pergunta ligeiramente despropositada. A quem passaria pela cabeça comprar um peixe se não possuísse, desde já, um aquário? Contudo, quando respondeu que sim, que possuía um aquário redondo para o peixe, foi-lhe comunicada a impossibilidade de comprar o peixe uma vez que o apartamento que ela tinha para a criatura (o aquário redondo) era demasiado exíguo. Não se dando por vencida, seguiu para a segunda loja de animais. Explicou, outra vez, que pretendia comprar um peixe e que já possuía um aquário de dimensões consideráveis para o senhor (o peixe) se sentir bem recebido. Passada esta etapa, e na iminência de comprar o bendito peixe, surge mais uma questão: há quanto tempo estava a água do aquário em tratamento para receber o habitante? Uma vez que a resposta não foi a correcta, mais uma vez a minha amiga se viu impossibilitada de adquirir o bendito peixe. Foi apenas na terceira loja, quando explicou que queria comprar um peixe, que possuía um belo aquário com dimensões nobres para o receber e que a água estava a ser tratada há, sensivelmente, 15 dias, é que ela conseguiu aceder ao pedido da filha e oferecer-lhe um lindo peixe de aquário. Assumo que adoro animais, mas não sou fã de peixes. Não lhes faço mal, claro, mas são, para mim, basicamente, o mesmo que uma planta. Estão… Existem… Contudo, imagino que, no caso dela, viveria apavorada com a possibilidade de o peixe morrer. Como explicar que o animal principescamente tratado teria morrido?

Depois de ter dado umas valentes gargalhadas com a história, dei por mim a pensar no quão diferentes são a Suíça e Portugal, no que ao tratamento dos animais diz respeito. Assumo que tanta preocupação me pareceu ligeiramente excessiva com um peixe. Mas… e o que se passa em Portugal com os animais de estimação? Este ano demos um enorme passo em frente quando, no primeiro dia do mês de Maio deste ano civil, entrou em vigor o novo estatuto jurídico dos animais. Perante este novo estatuto foi reconhecido aos animais o serem seres vivos dotados de sensibilidade, além de serem objecto de protecção jurídica. Ainda de acordo com a nova lei em vigor, ficaram os cidadãos de Portugal a saber que quem agredir ou matar um animal ficará obrigado a indemnizar o proprietário ou as pessoas que tenham procedido ao seu socorro pelas despesas em que tenham incorrido para tratar o animal. É, claramente, um passo em frente, mas tanto existe ainda para mudar nas mentalidades portuguesas.

Estamos em pleno mês de Agosto. Não conto pelos dedos das mãos as fotografias que já me passaram pela frente de animais que foram abandonados. Incrivelmente, continuam a ser abandonados animais pelas mais variadas razões, nas quais destaco algumas das explicações mais ouvidas: “Comprei-o tão pequenino, mas agora cresceu tanto!”; “Não tenho tempo para passeá-lo, ele exige imenso tempo e cuidados e eu não tenho esse tempo!”; “Vou de férias e não tenho a quem deixar o animal”. E o certo é que o animal é abandonado, deixado junto a uma estrada, numa serra, muitas vezes atado a uma árvore para que não só se veja abandonado como as suas próprias possibilidades de sobreviver sejam mínimas. Não deveriam estas pessoas ter sido interrogadas sobre as condições de vida que poderiam dar àquele animal antes de o adquirirem? Contudo, sabemos que poucos são os que são punidos por esses abandonos.

Aqui há tempos ouvi na comunicação social o caso de dois cães de grande porte que morreram por terem ficado fechados num carro, sob temperaturas acima dos 30 graus, enquanto o dono se passeava por um centro comercial. Várias pessoas viram os animais a agonizar; no entanto, pelos vistos, ninguém tomou providências. Sim, sabemos que o dono chorou imenso quando viu o resultado da sua inconsciência. Sim, sabemos que este senhor será presente a tribunal. Mas, não fazendo futurologia, não me parece que o castigo deste senhor que condenou à morte dois cães vá muito além de uma multa. Não deveria ser retirada a este senhor a possibilidade de ter mais animais? E as pessoas todas que viram e negaram auxílio? Não deveriam também elas ser chamadas à razão?

Penso ainda: não deveriam obrigar as pessoas que adquirem um animal (espero eu que dado e não comprado) a assinar um termo de responsabilidade?

A verdade é que ainda temos muito a crescer como sociedade, no que aos animais e aos seus cuidados diz respeito. Somos uma sociedade que aceita “acidentes”, como a morte daqueles dois cães, com um certo ar pesaroso, alguma indignação momentânea e nada mais. Somos uma sociedade com conhecimento de que todos os anos há imensos abandonos de animais de estimação na época de férias, mas que assobia para o lado e diz “O que pode ser feito para alterar esta situação?”. Somos uma sociedade que assiste ao crescimento totalmente descontrolado de colónias de gatos e que pensa que nada pode ser feito para o evitar. Somos uma sociedade que assiste ao uso abusivo de animais — cãezinhos que passam horas com uma cesta na boca, onde serão colocadas umas moedas, enquanto o “dono” canta ou toca umas miseráveis “musiquinhas”, por exemplo — e que não se incomoda ou até bate palmas! Somos uma sociedade que legitima as touradas, aceitando o sofrimento provocado num ser vivo apenas e só para alegria do público. Por fim, somos uma sociedade que aceita, como algo normal, assistir a números de circo onde se encontram integrados animais a realizar tarefas que nada têm a ver com o seu modo de viver natural. Concluindo: somos uma sociedade que ainda tem um longo caminho para trilhar no que ao tratamento dos animais diz respeito.

Chegados a este ponto sinto, desde já, as vozes a levantarem-se dizendo: somos é uma sociedade que trata mal os seus idosos! Que os abandona em lares ou até em hospitais. Porque deverei preocupar-me com animais quando há pessoas nesta situação? Ao que responderei: uma situação negativa não legitima outra situação negativa. Como cidadãos conscientes, temos obrigação de lutar contra esta forma de tratar a nossa população menos jovem, é óbvio. Mas temos obrigação, também, de tentar mudar mentalidades, de perceber que o animal é um ser vivo merecedor do melhor. Temos obrigação de fazer cumprir a lei (que, entre outras coisas, criminaliza o abandono), exigindo que seja colocado em prática o que, em boa parte, a lei já traçou.

No fundo, todos temos obrigação de contribuir para uma sociedade mais justa, sublinhando a obrigação moral de respeitar todas as criaturas vivas, demonstrando assim que podemos ser uma grande nação, partindo da perspectiva de Mahatma Gandhi: “A grandeza de uma nação pode ser julgada pelo modo como trata os seus animais”.

 

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