A Associação de Jogos Tradicionais da Guarda (AJTG) esclareceu esta quinta-feira, após a polémica que envolve o PAN – Pessoas-Animais-Natureza e uma aldeia de Seia, que o jogo da “morte do galo” utiliza um ovo em vez de um animal. “De há anos a esta parte, a AJTG opta por utilizar um ovo em substituição de um galináceo, ainda que o prémio para quem ganhar continue a ser o galo”, disse à Lusa Norberto Gonçalves, presidente da colectividade que desde 1979 vem estudando a cultura lúdica tradicional.

A polémica em torno da anunciada “morte do galo”, actividade prevista nas festividades do Santíssimo Sacramento, em Várzea de Meruge, em Seia, entre 8 e 11 de Setembro, surgiu depois de o PAN ter tornado público que tinha denunciado o caso ao Ministério Público, Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária e Câmara Municipal de Seia, com a intenção de impedir que um galo fosse morto à paulada.

Numa reacção a este anúncio, a União de Freguesias de Carragosela e Várzea de Meruge veio desmentir essa prática e, numa carta enviada ao deputado do PAN na Assembleia da República, André Silva, o presidente daquela autarquia, João Barreiras, admitiu mesmo processar o partido “por difamação”. A forma de travar esse processo, dizia-se na carta, citada pela Lusa, era o PAN e o deputado André Silva fazerem uma “retractação pública e o desmentido” da acusação feita “num prazo limite de 48 horas”, isto porque, o que acontece na “morte do galo” é um mero jogo infantil em que crianças, de olhos vendados, tentam acertar num ovo com um pau. O prémio para quem vencer o jogo é a entrega de um galo vivo.

Na denúncia feita na passada terça-feira, o PAN afirmava que a “morte do galo” consistia, de facto, num acto em que um galo “é agredido sucessivamente com um pau até morrer”. João Barros negou-o e disse mesmo que o acto descrito pelo PAN “nunca foi praticado na freguesia” e “especificamente na localidade de Várzea de Meruge”.

Apesar de a autarquia vir desmentir os factos descritos pelo PAN, garantindo que, por as festas serem organizadas pela junta, tal careceria de alvará e que aquela “nunca permitiria tal prática atentatória contra o direito dos animais e contra a Lei”, o PAN afirmou à Lusa, esta quinta-feira, que mantinha a denúncia. “A denúncia mantém-se e as entidades competentes farão aquilo que entenderem e os órgãos de polícia civil farão a sua fiscalização”, disse André Silva, deputado e porta-voz do PAN.

No meio da polémica a AJTG veio esclarecer que “nos anos oitenta do século passado o jogo do galo era presença habitual nas festas de qualquer aldeia do distrito”. “Aliás, a iniciativa da Câmara Municipal da Guarda que hoje se conhece por julgamento do galo, deveria, em boa verdade, manter a designação inicial de ‘Julgamento e Morte do Galo’, dado que foi beber à iniciativa filmada e estudada pela AJTG numa aldeia do concelho: Pousade”, disse Norberto Gonçalves à Lusa.

Segundo o dirigente, nesta localidade da Guarda, o galo, “era enterrado e, de olhos vendados e munido de um maço, o participante tentava acertar-lhe”. “Noutros locais, por exemplo em terras raianas, o galo era pendurado numa corda e o participante, igualmente de olhos vendados, mas a cavalo, tentava atingi-lo”, acrescenta.

O presidente da AJTG esclareceu que com “o correr dos tempos, a crescente consciencialização de que os maus-tratos animais não eram mais do que barbárie, levaram à evolução do jogo para outros patamares civilizacionais”, sendo utilizado o ovo em substituição do animal.

“Pese embora toda a legitimidade que se reconhece aos defensores dos direitos dos animais (com ou sem rebuscadas intenções políticas) é fundamental que se conheça (e reconheça) o que o jogo encerra para além do que é visível e aparentemente claro numa primeira aproximação”, adianta.

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