Homem de Abril. Pai orgulhoso. Doutorando e Investigador em Ciências da Educação.

Quando trouxe o meu gato cá para casa, ele tinha um mês de vida, parecia mais um rato do que outra coisa qualquer. Os contínuos espirros denunciaram que o gato estava constipado, o que em idade tão precoce pode levar à morte. Esta descoberta levou a que passasse algumas noites acordado no sofá para restaurar a saúde daquele animal indefeso.

Na aldeia (do interior) onde cresci, o asco aos gatos era diametralmente oposto à estima pelos cães. Recordo-me que as histórias que contavam atrocidades para com os gatos eram alegres e impunes e a maioria delas denunciavam o ávido e macabro gosto humano pela violência. Aliás, nas décadas de 1980/1990, a violência fazia parte da construção da masculinidade e o autoritarismo era frequente para manter o respeito e a ordem, ambos elementos fundamentais no processo educativo, bem visíveis em instituições como a Família e a Escola. A matança do porco (um dia de festa em família); perder o virgo (o pai levar o filho no início da puberdade a uma prostituta para perder a virgindade); e a professora estar autorizada, pelos pais, a bater nos estudantes, eram episódios frequentes e vistos com naturalidade no seio da comunidade. Portanto, matar um gato era um ritual, entre outros, de afirmação da masculinidade.

O facto de o gato manter sempre a sua génese selvagem torna-o um animal doméstico incompleto e por isso, em último recurso, impossível de educar — se bem que é um animal que prima pela higiene mais do que muitos humanos e nenhum de nós lhe ensinou coisa alguma a este respeito. Ainda hoje, quando alguém diz não gostar de gatos, a primeira justificação remete, geralmente, para o comportamento insubmisso, desleal e pouco devoto aos humanos. Acho sempre irónico como “as marcas” da educação acabam por se espelhar na forma como considerámos o mundo à nossa volta. Costumo dizer que cada um prefere o animal de estimação com o qual se identifica e isto não é uma crítica, mas uma constatação de que as nossas preferências são ditadas, muitas vezes, pela nossa resistência ou adesão às convenções sociais que nos são impostas ao longo das nossas vidas. A impossibilidade de subjugar o gato torna-o uma ameaça à autoridade humana e nós não gostamos que desafiem a nossa autoridade, tampouco um animal de estimação.

Temos muito que aprender com os gatos, individual e colectivamente. Fomos, todos, tão bem domesticados, tão devotos e subservientes às lideranças e às hierarquias — o verdadeiro “engraxanço e o culambismo português”, nas palavras de Miguel Esteves Cardoso — que nos custa e irrita quem tende a manifestar resistência a esta ordem estabelecida. Assim como nos irrita quem não passa o tempo a bajular “as altas patentes” e prefere manter-se sempre próximo da “classe trabalhadora”. Temos muito que aprender com os gatos.

O gato aqui de casa chama-se Che e ontem à noite, enquanto eu via um filme, ele perseguia atormentado uma mosca, percorrendo ora lentamente, ora com uma rapidez incrível, todos os cantos da sala na tentativa de a caçar, mas a tarefa mostrou-se tão ingrata que acabou por desistir e aconchegar-se nas minhas pernas.

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