APCA

“Para um autista, um cão de assistência serve para fazer a ponte entre a criança e o mundo que a rodeia, ajuda a superar as dificuldades e a quebrar barreiras sociais que desenvolve pela sua patologia.” Quem o diz é Rui Elvas, treinador e presidente da Associação Portuguesa de Cães de Assistência (APCA). “Estas crianças têm uma grande dificuldade em interagir e o cão consegue que a criança projecte nele muitas das suas ansiedades”, explica, em entrevista ao P3, enquanto aguarda, mais algumas semanas, para poder entregar um cão a João e à sua família. O menino de cinco anos foi diagnosticado com autismo moderado há um ano e a família não tem condições financeiras para suportar os custos de aquisição, treino e certificação de um cão de assistência. Foi a vontade de ajudar e fazer a diferença na vida deste menino que levou a associação a criar uma campanha de crowdfunding.

A angariação de fundos é apenas o primeiro passo para que João possa ter o seu cão de assistência. Para isto acontecer, o cão de água português escolhido para acompanhar este menino tem que aprender todo o tipo de comportamentos e estar apto a circular em espaços públicos e privados. Pode andar na rua, viajar em transportes públicos, entrar em lojas ou em restaurantes, desde que esteja identificado como cão de assistência — estes cães vestem, por norma, um colete preto — e não cause qualquer tipo de transtorno. “Estes animais estão treinados e certificados para poder circular de forma quase invisível”, garante Rui. Os próprios treinos são direcionados para tarefas específicas: um cão pode ser treinado como cão guia (para ajudar um cego), como cão para surdos (para ajudar um surdo ou pessoa com dificuldades na audição) ou como cão de serviço (para ajudar pessoas com deficiências físicas ou hormonais). Além disso, a APCA é, actualmente, “a única entidade certificadora” na área dos Medical Dogs em Portugal — cães de assistência que aprendem a lidar com outras patologias como autismo, epilepsia, diabetes, doença mental e mobilidade reduzida.

Abrir ou fechar portas, acender a luz e apanhar objectos são algumas das tarefas de um cão treinado para ajudar uma pessoa de mobilidade reduzida. No caso de um dono diabético, o cão é treinado para prevenir uma crise, detectando alterações nos níveis de açúcar no sangue. São também treinados para reagir a estados de ansiedade, depressão e ataques de pânico, ajudando as pessoas a ficar mais calmas. Em casos de epilepsia, os cães não aprendem a detectar a crise convulsiva propriamente dita, mas alertam quem estiver por perto. Na APCA, mais de 250 pessoas estão em lista de espera para receberem um cão de assistência.

O processo de treino de um cão de assistência é longo e pode demorar entre um a dois anos. Só quando tem oito semanas é que o animal pode estar preparado para se tornar um cão de assistência. Nessa altura, é entregue à nova família de acolhimento e recebe visitas regulares dos treinadores que iniciam, de imediato, o processo de treino e adaptação, acompanhando o seu desenvolvimento até atingir os patamares pretendidos em cada uma das situações diagnosticadas.

Um cão de assistência “deve ter características específicas” adequadas à sua função. Não há uma raça mais compatível com a função, trata-se de conciliar a patologia a ser trabalhada com as características e necessidades de cada família. A raça do cão da família de João é de porte “mais pequeno, come pouco, tem um pêlo hipoalergénico, não tem problemas genéticos conhecidos e vive cerca de 14 anos”, o que a torna mais indicada, por exemplo, para famílias que viajam bastante. Isto quando é comparada com outros cães como os labradores, treinados em maior número, os Jack russell ou os pastores alemães, as principais raças treinadas pela associação.

Histórias com finais felizes

Há três anos, quando surgiu a associação, os cães de assistência para ajudar pessoas com diabetes não eram uma realidade em Portugal. Rui e os colegas foram contactados para treinar um cão para uma criança diabética e perceberam que não havia resposta para este tipo de pedidos. “O grande objectivo foi avançar com o processo de criação de uma associação numa vertente que não estava a ser desenvolvida em Portugal”, recorda. “Foi por esse motivo, e para dar respostas a outros pedidos, que criámos uma associação que treinasse e certificasse estes cães.” Actualmente, “mais de 70% dos pedidos feitos à associação”, sublinha, “são para ajudar pessoas com autismo, muitas delas sem recursos financeiros”.

Miguel é um menino de cinco anos diagnosticado com autismo moderado e Sinatra é um labrador de sete anos que já pertencia à família e não estava treinado para ser um cão de assistência. Em casa dos donos, recebeu treino e foi acompanhado para se tornar o primeiro cão de assistência de uma criança autista certificado pela Associação Portuguesa de Cães de Assistência. “O Miguel não comunicava nem tinha qualquer tipo de interacção social e, neste momento, é uma criança completamente diferente, que entrou na escola sem qualquer diagnóstico de autismo”, garante Rui. “É um excelente exemplo da diferença que um cão de assistência pode fazer na vida de uma criança em apenas dois anos.”

Sinatra foi o primeiro caso de sucesso, mas não é o único em Portugal. Lucas, um labrador, foi treinado por Sónia e Hugo Roby, um casal de educadores caninos, para ser o cão de assistência de Ana Isabel Gonçalves, uma jovem com uma doença neuromuscular — sobre a qual o P3 também escreveu — que se desloca numa cadeira de rodas. E Nina, uma cadela de raça weimaraner, foi também educada para ajudar a realizar as tarefas diárias de Diana Niepce, uma bailarina profissional de 31 anos que caiu de um trapézio durante um treino de acrobacia. Hoje, desloca-se numa cadeira de rodas e tem o apoio da cadela de assistência treinada pela APCA.

Estas histórias levam outras famílias a pedir cães de assistência — como é o caso da mãe do João, que viu no Sinatra uma fonte de inspiração e espera que o filho tenha um novo animal de companhia. “O João não interage, não comunica, nem tem nenhum contacto com o mundo à sua volta”, explica Rui Elvas. “O cão de assistência não é uma solução milagrosa, mas ajuda a minimizar as barreiras sociais que criam em si próprios.” Sem recursos financeiros, era impossível a família do João conseguir suportar os custos de aquisição, treino e certificação de um cão de assistência, que podem variar entre os 5000 euros, no caso de cães para autismo, e os 17.000, se for um cão de alerta diabético.

O pedido da mãe do João é apenas um entre os vários que chegam diariamente à associação. “Todos os dias aparecem pedidos para crianças com autismo, principalmente desde que saiu o livro sobre Miguel e o Sinatra, mas a nossa capacidade de resposta é limitada”, conta Rui. “Nem todas as famílias têm meios para adquirir estes cães e têm de ficar em lista de espera até conseguirmos verbas para poder ajudar.”

“Vontade de ajudar”

A aquisição do cão é a primeira despesa de todo este processo e varia consoante a raça do animal; depois soma-se a castração e esterilização, a alimentação durante os dois anos de treino, as deslocações dos treinadores e ainda o registo (obrigatório para a certificação como cão de assistência), as licenças e o seguro. “São valores muito altos porque são processos muito longos e, mesmo assim, nem sempre é fácil cobrir todas as despesas”, sublinha Rui. Por ter em consideração as dificuldades das famílias sem meios financeiros, a associação decidiu encontrar uma alternativa para ajudar.

A APCA suporta os encargos com donativos e desenvolve campanhas de angariação de fundos para tentar responder às centenas de pedidos de pessoas que precisam da ajuda destes animais. A primeira campanha de crowdfunding foi criada em 2016 e, já em 2017, repetiram a iniciativa para dar a João a alegria de ter um cão. O custo do treino ronda os 5000 euros, tendo metade deste montante já sido coberto por um donativo. A campanha de crowdfunding, iniciada a 11 de Outubro, já angariou mais de 3.700 euros, valor que ultrapassa o objectivo inicial de 2500. A associação espera agora conseguir reunir, até ao próximo dia 7 de Dezembro, mais 1600 euros para ajudar uma segunda família em lista de espera, também sem condições financeiras para adquirir um cão de assistência.

Desde que foi criada, em 2014, a APCA — composta por uma equipa de seis treinadores, três terapeutas, um psicólogo e dois veterinários — treinou e certificou nove cães de assistência e já iniciou o processo de treino de mais dez animais. Uma formação que tanto ocorre em Portugal como em países como a Dinamarca, Suíça, Alemanha e Luxemburgo. Para Rui, “a única dificuldade da associação é a falta de fundos para poder ajudar as pessoas e não as colocar em lista de espera”. Até porque, realça, o resto está lá. “Não nos falta trabalho e vontade de ajudar.”

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