“O Caju entra na minha vida através do ‘padrinho’ Flávio Furtado. Ele sempre soube que eu queria ter um amigo destes para a vida. Na verdade, os meus avós e tios sempre tiverem animais, mas, na minha casa, os únicos amigos que lá viveram foram o Zé (um papagaio real) e o Marco Aurélio (um canário) — bom, foi o meu pai que deu estes nomes, um deles inspirado num jogador de futebol. Eu era muito menina e tenho poucas recordações. Mas eles chilreavam que era uma categoria.

Estava na altura de partilhar a minha vida com o meu Caju. Senti o chamamento. Gosto de cães e o Flávio tem a Carlota (uma Pug), um amor. Adoro-a e acho que, na cabeça dele, sentiu que eu tinha de ter um amigo igual.

E surpreendeu-me. Estava eu a postos, a cinco minutos de entrar no ar, e chega o Flávio ao estúdio com o Caju bebé (tinha três meses, agora está quase a fazer dois anos), com um laço azul ao pescoço. Deixou-me resguardos e comida para quatro dias. ‘Toma. É teu. E é igual a ti… cheio de energia.’ Ainda hoje me pergunto como é que eu consegui apresentar o programa, era muita emoção junta.

O Caju gosta muito de amar: gosta de todos os seus amigos patudos, da ‘mãe’, dos ‘tios’, dos amigos da ‘mãe’, de todos aqueles que lhe derem um carinho. É teimoso, adora dormir em cima das mesas e gosta que brinquem com ele. Não se deixa vencer pelo cansaço da brincadeira.

Nunca pensei ter um jeito de falar tão dengoso como aquele que tenho para os animais. Derreto-me com cães. Adoro! Na verdade, sou muito meiguinha e brincalhona. Tenho uma ligação para a vida com o Caju. Mas cada um deles tem um lado especial. Acho mesmo que se um dia tiver um gato, uma tartaruga ou um canário, etc., a ligação afectiva será igual.

O Caju ajuda-me a crescer. A parar para pensar, a desfrutar o apego, o carinho e o amor incondicional. Sabes que desde os 18 anos que vivo longe da minha família. Tenho 31 anos. A minha ligação aos meus é muito forte, porém distante. O Caju ajuda a matar as saudades da minha família. Porque ele é também família. O meu Caju é o meu reflexo. Cuido dele como cuido de mim. Somos um só. E acredita que nunca imaginei poder sentir tudo isto de forma tão profunda e honesta.

Devagarinho vamos despertando mais para os direitos dos animais. A nova lei, que possibilita a entrada de animais de estimação nos estabelecimentos de restauração fechados, por exemplo, é redutora. Na verdade, nunca sabes se podes ou não levar o teu amigo contigo. E tudo porque o proprietário tem o poder/direito de negar a entrada. Sempre que viajo para a Europa falo muito deste tema. Vejo animais em todo o lado: no metro, nos restaurantes, centros comerciais, nos hotéis. E verdade seja dita: são todos tão bem-comportados! Já nascem com este direito de serem livres com os seus donos. Acho que ainda há um longo caminho pela frente.

Ter um animal implica, em primeiro lugar, ter tempo para amar. É preciso estimar e elogiar os nossos animais. Eu gosto que o Caju se sinta amado. E eles sentem. Eles sentem tudo. A partir daí nasce a responsabilidade. Ele tem de ser uma prioridade. É preciso pensar na nossa vida, mas também no bem-estar dele. E acreditem, tenho tempo para tudo. Aliás, hoje com o Caju sou muito mais organizada nos meus dias. Não me custa acordar mais cedo para passear. Não me custa abdicar de uma saída porque sinto que ele precisa de mim naquela noite. Não me custa andar, por vezes, mais de carro no centro de Lisboa para usufruir da companhia dele. Não abdico. Faço-o porque amo o meu Caju.”

Isabel Silva

 

Fotografias cedidas por Isabel Silva. Depoimento construído a partir de entrevista por email.

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