Na segunda noite que passou na estação de investigação de Zackenberg, na Gronelândia, Konsta Punkka estava prestes a ir dormir depois de uma caminhada de cinco horas pelas paisagens caiadas de branco da ilha gelada. Pelo caminho, a câmara fotográfica que o acompanha não captou ninguém, nem conseguiu registar aquilo que o faz tantas vezes andar às voltas: vida selvagem.

Quando o fotógrafo estava a abrir a porta da cabana, virou-se para trás e lá estava, a poucos metros, uma cria de raposa do Árctico. “Às vezes sinto que são os animais que me tentam encontrar e não ao contrário”, diz ao P3 o finlandês que esteve em Aveiro para o National Geographic Exodus Aveiro Fest, o festival de viagem e aventura que decorreu no fim-de-semana prolongado de 1, 2 e 3 de Dezembro.

Chamam ao jovem de 23 anos, que se senta, envergonhado, à nossa frente, o “encantador de esquilos”. Poderiam também chamar-lhe encantador de ratos, pássaros, raposas, ursos, renas, focas, pumas. Mas Punkka quase nunca recorre a truques para atrair os animais selvagens que parecem simplesmente parar e fitá-lo de frente, os olhos presos na lente da sua câmara. “Eu consigo as fotografias porque estou no sítio onde sei que o animal vai estar numa certa altura do dia. Por exemplo, passei muitos dias com as raposas e sei por onde elas se movem e como agem. Agora basta-me esperar até elas chegarem.”

A raposa é um dos animais que mais gosta de fotografar. “É por causa das expressões. Tens de realmente respeitar os animais para que eles revelem alguma expressão. E elas têm muitas”, conta. Até porque as que costuma seguir “são naturalmente muito curiosas” e, às vezes, mistura-se o seguidor com o seguido. “Já os esquilos e os pássaros são animais que vejo em parques no meio da cidade e que estão habituados a conviver com pessoas e a serem alimentados”.

Ao saber onde encontrar os animais, começou a conseguir ser mais criativo e centrar-se noutros detalhes, como o cenário de fundo. Uma vez, para conseguir a foto de um texugo, visitou a quinta de vacas de um amigo. Sabia que o animal se escondia por lá, entrou no estábulo, cobriu-se de estrume, deitou-se no chão e esperou. E esperou mais uma hora. “Cheirar a estrume de vaca não resulta quando passeias na cidade, mas normalmente funciona bem com a vida selvagem”, brinca.

Konsta Punkka

A fotografia chegou a reboque do “amor pela Natureza”, aos 16 anos, e pouco tempo depois começou a partilhar as imagens numa conta no Instagram, que conta agora com mais de um milhão de seguidores. “Eu costumava passar todos os meus fins-de-semana e férias de Verão de infância na casa de campo do meu avô, na floresta, no meio do nada, na Finlândia”, conta. Ao observar os animais, ganhou vontade “de capturar os seus momentos e as suas emoções”. “A partir daí nunca mais quis fazer nada”, diz, sorriso tímido, enquanto conta que dos mamíferos da Finlândia foi para os da Noruega, Islândia, Gronelândia e depois para os da América do Sul e da Ásia.

“Já há muitos fotógrafos de vida selvagem” a apostar em África e Punkka não saberia “como se relacionar com os animais”. “Ou como eles reagiriam ao ver-me”, admite. “A fotografia de vida selvagem é sobre confiança entre mim e o animal. Primeiro vem o seu bem-estar e segurança. Depois, vem a fotografia.” Até porque o fotógrafo não se cansa de repetir que “não se conseguem fotografias assim se fores agressivo, perderes a paciência ou não te preocupares com o seu bem-estar”. E Konsta já aprendeu a não esperar reacções: “Às vezes, a Natureza funciona como tu queres e outras vezes não.” Por isso é que, quando os animais hibernam, o finlandês se vira para as paisagens.

Na pequena exposição que passou pelo Centro Cultural de Aveiro, a que chamou Alma da Floresta, cada imagem tem um animal selvagem no centro. O objectivo é mostrar “o máximo de emoções e sentimentos” e perceber como as pessoas, que muitas vezes vivem tão próximas deles, os interpretam. “Eu espero que as minhas imagens mostrem às pessoas com quem elas também partilham a cidade e tantas vezes estão demasiado ocupadas para ver”, sorri.

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