Estefânia BarrosoEstefânia Barroso é professora por esse país fora. Cronista nas horas vagas.

Estamos em época natalícia. E Natal é a época em que a alegria e os sentimentos bons devem reinar (pelo menos, é o que nos vão dizendo desde os nossos mais tenros anos). Não sendo uma “incondicional” do Natal, assumo que procuro pôr em prática esses sentimentos bons ao longo da época.

Este ano não foi difícil procurar uma situação que me deixasse mais feliz, uma vez que os meus olhos se cruzaram com uma informação que muito me agradou: o PAN agendou para dia 21 deste mês o debate na Assembleia da República de um projecto de lei que prevê a proibição total da presença de animais no circo. Aplaudo de pé esta iniciativa e espero que venha a trazer o único resultado possível: a proibição de utilizar qualquer animal no circo. E aplaudo de pé a data em que tal projecto irá passar.

A época natalícia está muitas vezes ligada à ida ao circo. Tempo livre, férias, parece ser sempre um bom programa para as crianças. Que fique claro que nada tenho contra o circo (apesar de não apreciar muito palhaços que me oferecem mais pesadelos que gargalhadas). Tenho sim uma indignação, e até alguma raiva, em relação aos circos que continuam a usar animais para gáudio dos seres humanos — pequenos e graúdos – que vão apreciar um leão ou tigre a saltar por aros de fogo, cavalos que executam uma espécie de dança sobre duas patas e uma infinidade de actuações grotescas. Do que pude ler e perceber, verifiquei que ainda é permitido actuarem, como vedetas do circo, animais como tigres, leões, hipopótamos, camelos, tubarões, zebras, serpentes, cães, cavalos, póneis, burros e raposas. Não sei se os números continuam a ser aqueles que via em criança – quando a própria escola me levava a ver esse infeliz espectáculo – mas sei, e tenho certeza, que a violência física e psicológica a que são submetidos esses animais se mantém.

É de esperar, como aconteceu em 2009, quando foi proibida a aquisição e reprodução de certos animais, tais como primatas, ursos, morsas, focas, entre outros, que se ergam as vozes da revolta. Aliás, também já me fui cruzando com algumas. A que mais me chamou a atenção, por ser quase infantil na defesa que faz, é a de Dantas Rodrigues. Ora este senhor vaticina a morte do circo, referindo logo no título do seu artigo que Lá se vai o circo (como se a arte circense se apoiasse, apenas e só, na apresentação de uns quantos números de animais obrigados a realizar malabarismos medonhos). Perturba-o que as suas memórias de infância terminem . Pelos vistos, também aprecia observar aves cativas só porque, quando era um “jovem crianço”, coleccionava cromos. Argumentos de “sempre foi assim” e de “esta é a tradição” (tal como se defende nas touradas). Não existe argumento mais pobre que esse. Há que reconhecer que se ouvíssemos sempre a tradição provavelmente ainda estaríamos em tempos de escravatura e provavelmente seríamos completamente a favor da pena de morte. Como dizia Einstein “a tradição é a personalidade dos imbecis”.

Afirmo: circos com animais são inadmissíveis. O sofrimento que lhes é provocado, tanto física como psicologicamente, não pode ser entendido como um mal necessário à manutenção da tradição. Ouço dizer que são bem tratados quando não estão nos espectáculos. Que são bem alimentados, que vivem bem — em habitats, na maior parte das vezes, completamente diferentes dos seus. Obrigar os animais a fazer viagens constantes, em jaulas exíguas, é tratá-los bem? Deve ser pouco stressante para eles “passear” por esses caminhos portugueses.

Forçar os animais a agir de determinada maneira (andar em duas patas, saltar por aros de fogo, executar supostas danças – como se via nos elefantes) não poderá ser visto como algo de bom ou belo. Esses comportamentos nada têm a ver com a vivência de animais da mesma espécie quando se encontram em liberdade. São movimentos que são desconfortáveis, assim como perigosos (um elefante apoiar todo o seu peso em duas patas não poderá ser algo inócuo para ele). Há que pensar também nas dores psicológicas: todo o ambiente da apresentação num circo, com luzes, barulho, presença de muitas pessoas, só poderá ser angustiante, difícil de suportar e stressante. E, por fim, pensemos como conseguem os “treinadores” controlar o comportamento dos animais, obrigá-los a realizar esses truques? Sabe-se que é frequente o uso de chicotes, de focinheiras, já ouvi falar em bastões eléctricos. A verdade é que para obrigar um animal a executar aqueles movimentos grotescos há que quebrar a sua força de vontade, há que dar a perceber quem é o mestre e quem é a besta — tudo isso será, mais uma vez, tratar bem um animal?

A proposta do PAN é que sejam proibidos todos os animais no circo e que os mesmos sejam reencaminhados para reservas onde possam recuperar e preservar a sua integridade. Mais uma vez reafirmo que concordo, também, com essa solução.

O vaticínio do senhor Dantas de que o circo ficará mais pobre sem animais, que está anunciada a sua morte, mais não é do que a incapacidade de perceber o que já ficou provado pelo Cirque du Soleil e por alguns outros que abandonaram a presença dos animais no espectáculo: a arte humana é suficiente para manter de boa saúde o maior espectáculo do mundo!

Por fim, e porque as palavras já vão sendo excessivas, uma pequena nota: não basta legislar sobre a presença de animais no circo. Há que relembrar a existência das touradas, dos espectáculos de golfinhos e leões-marinhos ou de todo e qualquer evento público de exibição de animais para diversão do ser humano. Todos eles deveriam ser, também, questionados.

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