André Silva, Porta-voz e Deputado do PAN

 

Hoje, 21 de Dezembro, é o dia mais curto do ano e, consequentemente, o dia com o menor tempo de luz no ano. É assim que vivem todos os dias os animais nos circos, em confinamento excessivo. No circo, os animais passam a maior parte do seu dia encarcerados. Apenas entre 1 a 9% do seu tempo é passado em treino ou no espectáculo. Este tipo de confinamento desumano está na origem de estereotipias, transtornos comportamentais que revelam ansiedade — é o caso dos repetidos movimentos circulares ou basculantes, mais frequentes em tigres, leões ou elefantes.

A evidência científica demonstra que os actos de performance na presença de espectadores causam stress severo aos animais. O stress é causado pela restrição de movimentos, luz artificial, exposição a volume de som alto e aversivo ou temperatura inadequada para os animais. No que diz respeito ao treino, este compromete fortemente o bem-estar dos animais já que os métodos incluem severas punições físicas e emocionais, com vista a usar o medo para a subalternização do animal. Domar um animal é um processo que envolve a mudança do comportamento, mas não a sua composição genética. Neste processo, os animais são obrigados a submeterem-se e a subjugarem-se. Os animais nos circos são meras sombras daquilo que são na Natureza —  são marionetas a quem foi retirada toda a dignidade. A verdade é que, mesmo aqueles que já foram reproduzidos em cativeiro, estes animais criados em circos são idênticos aos seus congénitos selvagens.

Os espectáculos de circo têm um impacto contraproducente na percepção dos espectadores, especialmente nas crianças, que, ao invés de conhecerem os animais de uma forma natural, são doutrinadas com o expoente do modelo antropocêntrico: a supremacia, a dominância e a repressão da espécie humana sobre as outras. Tudo isto para entretenimento. E tudo isto é tão fútil, tão oco, tão anacrónico. O que uma sociedade evoluída deve transmitir às crianças é que a inteligência que distingue o ser humano das outras espécies; não deve servir para as subjugarmos, mas para as protegermos. O que temos que dizer às nossas crianças é que temos de transformar a atitude do predador pela do jardineiro.

Privar animais selvagens da liberdade é algo intrinsecamente cruel. Jaulas maiores, melhor regulamentação e mais fiscalização não resolve. É manifestamente impossível aos circos assegurarem requisitos fisiológicos, mentais e sociais adequados para os animais, prejudicando gravemente o seu bem-estar. A exploração de animais selvagens em circos reflecte uma visão ultrapassada. Em Novembro, a Irlanda tornou-se o vigésimo país da União Europeia a proibir a utilização de animais selvagens nos circos. Ontem à tarde, a Escócia tornou-se o mais recente país a fazê-lo.

O PAN defende que Portugal se junte a estes países, prevendo uma moratória, por um lado, para que os circos se possam adaptar a uma realidade sem animais e, por outro, para que haja tempo para se reencaminharem os animais para reservas.

Propomos ainda que os tratadores e treinadores dos circos que cedam gratuitamente os animais ao Estado tenham direito, por um período de cinco anos, a um apoio para efeitos de reconversão profissional. Temos um desígnio e um sonho pelo qual vamos trabalhar e que é muito claro: até todas as jaulas estarem vazias.

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