João Nogueira Dias é um ninja que não aprecia artes marciais

Toda a vida tive cães em casa. Há cerca de um mês, adoptei uma gata ainda bebé que vivia na rua. É muito meiga, mas, como com todos os gatos, fazer-lhe festas tem qualquer coisa daquele jogo da operação: se tocares numa zona proibida, perdes. Perder, no Operação, era acender uma lâmpada e soar um barulho estridente. Perder, a fazer festas a um gato, é este querer matar-te, começando pelas mãos.

Enquanto as investidas que a minha gata faz, com unhas e dentes, não me fazem esvair em sangue, vou tentar descrever a experiência de conviver com um animal desta espécie.

Se escreveres no Google “cats are aliens”, vais perceber que até já existe um site dedicado à teoria que defende que os gatos são oriundos de outro planeta. Numa primeira análise, isto é estúpido. Numa segunda, continua a ser, mas tendo em conta a relação difícil que os gatos têm com a lei da gravidade e a forma como conseguem passar por buracos demasiado pequenos, acho que a teoria ganha alguma relevância.

Nesse site dedicado à teoria sobre a origem extraterrestre dos gatos é dito, inclusivamente, que estes têm como missão vigiar-nos e impedir-nos de progredir no conhecimento. Isto até faz sentido: sempre que estou a ler, a minha gata decide brincar comigo ou pedir mimo. Das duas, uma: ou faz isto porque é fofa, ou porque é um ser calculista, com uma missão bem definida, que usa o seu encanto para me impedir de evoluir culturalmente.

Mesmo perante boa literatura, ou perante um artigo esclarecedor sobre a tensão na península da Coreia, é difícil estar atento à leitura quando há um ser adorável que se esconde para nos atacar ou que rebola atrás de uma bolinha. A literatura e a política internacional são divertidas, mas só quando não há por perto um gato a brincar com uma bolinha.

O gato é um pequeno polícia que temos em casa: todo o objecto que levares para dentro daquele território é alvo de inspecção. Se levares sacos, então as suspeitas de actividade ilícita aumentam e o gato não largará os sacos até ter a certeza de que não há ameaças para a sua segurança e para a do planeta. Ou de que não tens coisas comestíveis dentro do saco.

Muito do dia-a-dia do gato é passado a dormir. Enquanto está no sono leve, que é o mesmo que dizer “enquanto dorme sem pousar a cabeça e agitando a cauda”, o gato monitoriza, não só, os nossos movimentos, como o daquela mosca que está a voar junto à janela, da aranha que faz uma teia junto à porta, do átomo de hidrogénio que passou junto a uma orelha, ao mesmo tempo que analisa a evolução nos mercados de dívida pública e questões importantes que estejam a ser faladas no noticiário, como a lei do financiamento partidário ou a crise dos CTT.

Questões menores, como as polémicas do futebol, não costumam atrair a atenção dos gatos. Nem deviam atrair a dos humanos.

Na fase de sono profundo, a mente do gato viaja até uma dimensão paralela, o que se revela tão exigente, em termos psíquicos e físicos, que, quando acorda, o gato parece estar sob o efeito de drogas. Demora uns minutos até ele ter o sistema operativo funcional e saber em que planeta está.

Quem já teve um gato a morder-lhe o braço e a cravar-lhe as unhas sabe que este animal acaba por ser benevolente: ele podia facilmente matar-nos, durante o sono. Não o faz, mas, em troca, dorme encostado a nós e rouba-nos a almofada. No fim, acaba por nem ser mau negócio.

No capítulo da alimentação, tem gostos variados. No da degustação, também: distrais-te uns segundos e ele está a provar os teus panados. Mas, se te distraíres a comer sardinhas, ele prova na mesma. Não é nada esquisito.

É tão limpo que nunca cheira a nada.

Nem a fritos, quando te rouba um panado.

Leia também

Estes animais parecem gostar de água (benta)

Porque é que a galinha entrou na igreja? Afinal havia outra razão para além da porta estar…