É um episódio sem precedentes e com origem ainda desconhecida. Entre 5 e 8 de Janeiro, 21 aves foram encontradas na costa Norte do país cobertas com hidrocarbonetos. Dezoito delas foram encontradas com vida. As outras três estavam mortas. Diz a Polícia Marítima, que tomou conta da ocorrência desde o primeiro dia, que foram encaminhadas para o Centro de Reabilitação de Animais Marinhos (CRAM), na Gafanha da Nazaré, onde estão a ser tratadas e alvo de análise para que se possa descobrir a origem da contaminação.

São 13 airos, três tordas-mergulheiras e dois gansos-patola já livres da substância, mas que ainda não estão fora de perigo, admite a coordenadora do CRAM, Marisa Ferreira que no centro recebeu outras três aves já mortas: um airo, uma torda-mergulheira e um papagaio-do-mar. Todas elas são aves migratórias mas está fora de questão terem sido contaminadas noutra área que não o litoral português. “Nesta altura do ano já estão instaladas na costa há algum tempo”, explica. O centro está a analisar a substância com a qual as aves foram contaminadas para descobrir de que se trata. Sabe-se apenas que são hidrocarbonetos. Os hidrocarbonetos naturais incluem o petróleo, o carvão ou o gás natural.

Não é a primeira vez que são encontradas na costa portuguesa aves na mesma situação. É, no entanto, uma situação “inédita” pelo elevado número de ocorrências registadas. “Por vezes acontecem episódios isolados com uma ave a dar à costa nesta situação”, afirma Marisa Ferreira. Não tem memória de outro episódio com esta dimensão.

Não há indícios de derrame

A primeira ave foi encontrada a 5 de Janeiro, na Póvoa de Varzim e a última no dia 8 na Torreira, em Aveiro, adianta o comandante da Polícia Marítima, Carlos Campos. Outras aves foram encontradas em praias da zona de Viana do Castelo, Espinho e Gaia. Desde dia 8 não existem novos registos. “Parece ter estabilizado”, afirma o responsável. Desde essa altura, estão a ser levadas a cabo patrulhas pela costa para apurar as causas da contaminação. Garante, porém, não existir alarme de derrame por não ter sido encontrada “uma mancha” nas águas.

À imagem do que é veiculado pelo CRAM, diz tratar-se de um episódio sem termo de comparação. Está agora entregue à Agência Portuguesa do Ambiente a responsabilidade de analisar as águas. Até saírem os resultados prefere não arriscar uma tese.

No último sábado, dia 6, Francisco Godinho, surfista há 10 anos e instrutor da modalidade, estava numa praia do concelho de Gaia quando detectou que algo “de estranho” se passava com as águas do mar. Na altura estava a leccionar uma aula de surf quando reparou que o pé do aluno estava com uma cor “fora do normal”. O mesmo aconteceu com as pranchas que foram ficando pretas e ganhando uma textura “espessa e pegajosa”. É quando sai da água que encontra uma ave morta. Comunicou à Polícia Marítima que na altura informou já estar ao corrente do problema. Perante a situação gravou um vídeo, cuja divulgação se tornou viral.

Diz Francisco Godinho que o fez com o propósito de sensibilizar as entidades responsáveis em prol da segurança de quem usa as praias, sobretudo fora da época balnear, para a prática de desportos recreativos. E para o garantir, pede a “divulgação imediata” das condições da água das praias por parte das entidades responsáveis .

CRAM

 

Análises negativas em Matosinhos são “acontecimento isolado” e sem ligação a este caso

Uma semana antes destas ocorrências, a Surfrider Foundation Porto divulgou o resultado de uma análise realizada às águas de algumas praias do Porto e de Matosinhos. Diz a organização mundial com representação local que a análise divulgada a 27 de Dezembro tem resultados negativos. De acordo com o coordenador da Surfrider Foundation, António Fernandes, foram registados níveis de esterococos intestinais e Escherichia Coli “acima do aceitável”. Esta ONG, com origem nos Estados Unidos, está a monitorizar a qualidade das águas das praias desta área desde Agosto do ano passado em virtude de no Inverno de 2016 terem existido casos de surfistas que “deram entrada no hospital com problemas de pele e gastrointestinais”.

Estas bactérias são responsáveis por sintomas similares. Alega por isso poder haver uma ligação entre os alegados casos de problemas de saúde e a possível existência de níveis elevados destas duas bactérias por altura das ocorrências que diz terem sido registadas.

Em meses anteriores, os resultados das outras análises a cargo do laboratório MicroChem que se prolongarão até Março deste ano foram positivos. Terá contribuído para estes últimos resultados o facto de terem sido realizadas durante “um período de elevada pluviosidade”.

O responsável pela ONG diz que, ao contrário do que foi veiculado por algumas publicações da especialidade, estas análises não tem qualquer ligação com o caso das aves que deram à costa. A chamada de atenção por parte da organização tem uma única finalidade: “Pressionar as entidades locais a tomarem medidas”. Fundamental diz ser a necessidade de existir informação constante sobre a qualidade das águas. Admite que estes resultados menos satisfatórios possam ser episódios isolados mas, de qualquer forma, devem ser divulgados para que, depois, “cada um possa escolher arriscar ou não”. Sublinha ainda ser necessário pensar as actividades na praia “além da época balnear”, já que “durante todo o ano há quem utilize a praia para desportos náuticos”.

Face aos resultados apresentados pela ONG e à “confusão” que deu origem a que estes dois casos tivessem sido confundidos como sendo parte do mesmo problema, a Câmara Municipal de Matosinhos (CMM), em comunicado, demarca-se do primeiro caso e afirma não ter sido reportada à autarquia qualquer ocorrência de animais contaminados que tenham dado à costa.

Em relação à qualidade das águas, a CMM diz ignorar “em que condições terá sido efectuada a suposta análise” ou se a mesma “cumpriu os protolocos científicos adequados”. Sublinha, contudo, o facto de a “suposta recolha” ter sido “realizada num período de elevada pluviosidade”, o que pode “alterar as normais condições de descarga dos rios que desaguam nas imediações da praia”.

Acrescenta ainda que “a situação descrita não tem qualquer correspondência com os resultados da monotorização que, desde 2016, a CMM e a APA têm mantido em permanência” nas praias do concelho.

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