Antes de soltar o seu cão num parque público nas traseiras de um supermercado Minipreço, na freguesia da Ajuda, em Lisboa, como faz todos os dias de manhã, esta terça-feira João Molinar deu uma volta pelo espaço, prestando especial atenção ao chão. Isto porque no dia anterior, enquanto tomava o pequeno-almoço e via o cão “explorar sozinho” os arredores, o arquitecto de 28 anos avistou no fundo do parque “vários pedaços de pão”. Aproximou-se e percebeu que cada bocado estava “cravado com três pregos de sapateiro cuidadosamente escondidos”.

Tirou então as fotografias que acompanham este artigo, deitou o pão ao lixo e escreveu uma publicação na conta que criou para o seu weimaraner de dois anos e meio, Pó D’ Arroz. A “Carta aberta a quem não tem cão (e aviso a quem tem)” já conta com quase 12 mil partilhas no Facebook.

João Molinar acredita que o pão foi “colocado especificamente para os cães que ali passam”, já que, diz, o parque é maioritariamente frequentado por pessoas acompanhadas por animais de companhia. As unidades da GNR e da PSP na freguesia da Ajuda confirmaram ao PÚBLICO que não receberam denúncias, nem deste caso, nem de outros semelhantes naquela área. Também não têm registo de queixas devido à presença dos animais de companhia no parque.

“Por hoje peguei no pão todo e fui direito ao lixo, mas o que acontecerá amanhã se não for ao parque a essa hora e alguém passear o cão antes?”, escreve João Molinar. “Ou será que tal situação se vai tornar preocupante apenas quando duas crianças estiverem a brincar e, ao ver tal pão seco e crocante no chão do jardim, o metam na boca?”

Na publicação, o gestor da página diz que “desde pequeno que o Pó D’Arroz ouve e aprende que não pode comer coisas do chão”, uma aprendizagem dificultada por diversas tentações como “sandes mistas ainda embaladas, bananas, sandes de carne assada, lasanha, pão para pombos e batatas fritas” que encontram “em cada canto da cidade de Lisboa”. No entanto, “nem todos os cães são ensinados para isto”, lembra, acrescentando que optou por divulgar a carta aberta para “chegar ao maior número de pessoas” e “alertar para situações deste género que podiam ter transformado a rotina normal de segunda-feira num verdadeiro pesadelo com resultados inimagináveis”.

João Molinar

João frequenta o parque desde Agosto último e diz que, apesar de “às vezes haver algum lixo na zona”, nunca tinha encontrado uma situação como a que denunciou. Quando contactada pelo PÚBLICO, a vice-presidente da SOS Animal reiterou que a situação, de que já tinha tomado conhecimento, deverá ser “um acto de maldade pontual”.

“Não é uma situação comum em Lisboa”, diz Clarisse Cerdeira, cidade onde a maior parte das queixas que a associação sem fins lucrativos de protecção animal e ambiental recebe se devem a situações de negligência, maus-tratos, abandono ou atropelamentos seguidos de fuga. “Talvez seja mais comum em zonas rurais”, conclui.

O gabinete de comunicação da junta de freguesia da Ajuda disse que a denúncia foi recebida com “espanto” e que é normal verem-se pessoas a passearem animais na área, estando “previsto” mais um parque para a zona.

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