São animais meigos, sociáveis e limpos. Aprendem truques e são fáceis de cuidar. Quem os tem não os trocava por nada, apenas lamenta a sua curta vida. Sim, estamos a falar de ratazanas. Na casa de Mariana Flores, em Leiria, coabita-se com dois gatos, um cão e duas ratazanas. E no Porto, Joana Costa partilha o lar com sete ratazanas. Depois de descobrir que poderia ter ratazanas de estimação, Mariana não hesitou em adoptar estes animais: “Quando, em 2009, vi um documentário sobre ratazanas domésticas, fiquei logo fascinada e comecei a procurar em lojas e criadores até conseguir encontrá-las”. As escolhas de Mariana e Joana não são inéditas: actualmente, já há ratazanas domésticas em lojas de animais, produtos destinados à sua alimentação e bem-estar, uma comunidade organizada em Portugal e criadores e veterinários especializados em exóticos que cuidam destes animais. O que ainda falta concretizar: desmitificar o “preconceito” contra quem considera as ratazanas “como um animal de estimação”.

É um animal doméstico pouco comum quando comparado com outros animais que vivem na maioria dos lares portugueses, mas muito popular em países como Inglaterra, Estados Unidos e Canadá. “No século XIX, as ratazanas começaram a ser domesticadas em Inglaterra. Inicialmente estavam envolvidas em desportos e, mais tarde, surgiu um negócio de venda como animais de estimação. A própria rainha Vitória tinha as suas ratazanas de estimação”, explica Mariana. Em Portugal, a ideia de adoptar uma ratazana como “um animal que se pode ter em casa” chegou mais de um século depois.

Quando Mariana Flores foi à procura das primeiras ratazanas de estimação não sabia as dificuldades que ia ter para as encontrar. Tentou, primeiro, em lojas; pesquisou, a seguir, por sites em português e a única descoberta foram dois fóruns, onde falou com donos de ratazanas domésticas que também faziam criação. “Na altura era muito difícil encontrar estes animais, tive de fazer 100 quilómetros para ir buscar os meus dois primeiros”, contou ao Pet, referindo ainda ter percebido rapidamente que o “interesse por ratazanas era algo recente no país”. Na Internet havia imensos sites escritos em inglês sobre o assunto. E em Portugal, concluiu, “não havia nenhuma informação”.

Para mudar esta realidade, decidiu criar um blogue, que depressa se transformou na comunidade portuguesa das ratazanas domésticas. Nascia, em Abril de 2009, o Ratz fórum. Objectivo: informar as pessoas sobre os cuidados a ter quando adoptam uma ratazana doméstica e desmitificar a ideia de que a ratazana é um animal “sujo” que espalha doenças.

O que a ilustradora de Aveiro não imaginava era que, paralelamente ao crescimento do conceito e da equipa do projecto, pudesse contribuir de alguma forma para fomentar uma “moda”. Quando a 4 de Abril, em 2014, pensaram em celebrar o Dia Mundial da Ratazana Doméstica, decidiram “espalhar mais informação e fazer uma promoção de um animal que era ainda desconhecido para a maioria das pessoas”. Mas não esperavam reacções imediatas. “Notei que houve um grande boom de interesse: imensas pessoas compraram, adoptaram ou começaram a fazer criação destes animais por impulso”, recorda Mariana com ar pouco satisfeito. “Depois, como acontece frequentemente com outros animais, perderam o interesse e cresceu o número de animais para adopção.”

Mariana, de 30 anos, teve os seus primeiros “ratz” – um diminutivo carinhoso que usa para apelidar os seus roedores – quando estava a estudar na universidade. Desde então, nunca mais deixou de ter ratazanas domésticas, através da compra ou adopção, e houve até uma altura em que fez criação. “Deixei de ser criadora porque percebi que as pessoas que querem ter ratazanas, por vezes, não são bons donos.”

“Ainda há um estigma muito grande”

Para Marta Castelejo, médica veterinária na clínica Exóticos em Braga, tornou-se comum tratar de ratazanas domésticas, embora lhe passem pelas mãos, por ano, apenas cerca de 20 – um número bastante reduzido quando comparado com outros animais domésticos, como cães e gatos. “Na nossa cultura ainda não está intrínseco que uma ratazana deve ir ao veterinário quando está doente e isso ainda falha nestes animais”, explica. Estes roedores (de nome científico Rattus norvegicus), com uma longevidade que varia entre os dois e os quatro anos, precisam de realizar check-ups com frequência, para detectar precocemente tumores e problemas respiratórios, as principais causas de morte.

Apesar de serem animais omnívoros, nem todos os alimentos são adequados. “As ratazanas devem ter uma ração própria e uniforme para que não possam escolher umas sementes em detrimento de outras”, explica Joana Pereira, da Clínica Veterinária dos Milagres, em Leiria. Podem ainda “acrescentar-se verduras ou fruta frescas”. Importante é não contribuir para a obesidade, um problema comum nas ratazanas. “As principais doenças são, muitas vezes, provenientes do mau maneio destes animais e podem estar relacionadas com uma alimentação que não tenha os nutrientes essenciais.”

O que os donos de ratazanas domésticas devem ainda ter em atenção é que estes animais precisam de gaiolas com cerca de dois metros quadrados por cada ratazana, preenchidas com uma roda ou esconderijos pendurados, e camas para se aconchegarem durante a noite ou quando está mais frio. Devem também ter a companhia de, pelo menos, uma ratazana – sendo aconselhável separar os machos e as fêmeas em gaiolas distintas –, porque “não gostam de estar sozinhos”. Esta interacção também se estende aos donos. “É fundamental que as pessoas saibam que as ratazanas são animais muito dóceis que se relacionam facilmente com os donos, daí ser fácil ensinar-lhes certos truques”, diz Joana Pereira.

A distinção entre as ratazanas domésticas e selvagens é importante. Pertencem à mesma espécie mas, sublinha Mariana Flores, “não é aconselhável apanhar ratazanas na rua e tentar domesticá-las”. Marta Castelejo já tratou de uma ratazana selvagem ferida e refere as diferenças: “É um animal mais assustado do que aqueles que estão habituados à manipulação humana e reage mais facilmente com agressividade”. No entanto, sublinha, “não há grandes diferenças em relação às ratazanas domesticadas”.

Ainda que a ideia mais comum sobre este animal se prenda com o facto de ser “sujo” e ter uma “cauda sem pêlo” — que pode causar impressão à maioria das pessoas —, as ratazanas começam a “suscitar curiosidade” e a ser vistas “como mais um animal para ser acarinhado”. Mariana já teve 24 ratazanas. Joana Costa soma 16, sem contar com as que teve enquanto criadora e proprietária de uma loja de animais no Porto. Para ambas é cada vez mais difícil “despedirem-se” dos seus animais. Joana recusa-se até a vender ratazanas porque, conta, chegou a ter de “acolher animais que eram devolvidos pelos donos que já não os queriam”. E acrescenta: “Não é fácil perceber se quem compra só adquiriu as ratazanas por impulso, por serem animais baratos”.

Fundamental é a consciência de que a ratazana pode ser um animal doméstico. “Ainda há um estigma muito grande, principalmente por pessoas com mais de 50 anos, que não vêem uma ratazana como um possível animal de estimação”, diz Marta Castelejo. “Penso que tem a ver com uma questão de cultura: as ratazanas sempre foram vistas como animais de esgoto, que comem tudo e andam no lixo”, prossegue a veterinária, sendo “associadas ao campo e não ao ambiente doméstico”. Segundo Joana Pereira, este “preconceito” está relacionado com a falta de conhecimento. “Ainda há quem não saiba que são animais que vivem em cativeiro e que têm uma relação próxima com o dono, que nada têm a ver com a ratazana selvagem que foge das pessoas e até pode transmitir doenças.”

Há mais informação sobre ratazanas e, todos os dias, Mariana tenta dar resposta a novas dúvidas que vão surgindo no site e na página de Facebook do seu projecto. O que ainda está a falhar, refere, é “uma melhor opinião sobre as ratazanas”. A solução para “mudar mentalidades” e ajudar estes animais pode passar, segundo Joana Costa, pela “criação de uma associação da ratazana doméstica”. “As ratazanas também são abandonadas e precisam de um sítio que cuide delas. O Ratz fórum ajuda a encontrar um lar e novos donos, mas ainda não é o suficiente.”

Mariana Flores tem duas ratazanas domésticas e criou um projecto para informar os donos sobre os cuidados a ter com estes animais
Joana Costa sempre se interessou por animais diferentes e já cuidou de 16 ratazanas
As ratazanas domésticas vivem entre dois a quatro anos e os tumores são a principal causa de morte

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