Mariana Flores é ilustradora e mora em Leiria com os seus animais e os seus livros

Uma vez vi um documentário sobre ratazanas. Sobre como como são animais inteligentes e incompreendidos. Devem a sua má fama a um preconceito nascido de um erro, pois estudos mostram que não foram responsáveis pela peste negra. São capazes de empatia e cooperação, aprendizagem e adaptação. E riem quando lhes fazem cócegas.

Fiquei obcecada pela ideia de ter ratazanas domésticas de estimação. Na altura, ainda não havia muitos criadores ou lojas e tive de fazer 100 quilómetros para ir buscar os meus dois primeiros.

As “ratz” — como gosto de lhes chamar carinhosamente — são animais gregários, que adoram companhia, pelo que trouxe dois irmãos da ninhada, o Fivela e o Botão. Aprendi imensas coisas com eles — algumas das quais vou contar aqui, como os meus primeiros erros como dona de “ratz”.

1. A escolha do criador: era um rapaz jovem que nunca tinha criado antes e não sabia o que estava a fazer. O Fivela sofria de um problema genético de respiração que teria sido evitado por um criador mais experiente.

2. A gaiola: a primeira era demasiado pequena para duas ratazanas, que requerem gaiolas altas e espaçosas, com brinquedos e esconderijos. Hoje em dia, a minha gaiola tem um metro de altura.

3. O substrato: usei areia de gato. Absolutamente impensável, pois é tóxica para eles. Há imensos substratos próprios para roedores disponíveis em lojas de animais.

4. A alimentação: durante algum tempo usei uma mistura incompleta. Há rações próprias para ratazanas domésticas e elas precisam de comer também frutas e legumes frescos.

5. O veterinário: o primeiro veterinário onde fui não sabia o que era uma ratazana doméstica. Actualmente, há veterinários especializados em exóticos, extremamente competentes e dedicados. Isto porque ratazanas domésticas não são animais de esgoto. Apesar de serem morfologicamente iguais às suas primas selvagens, estas nossas ratazanas são o resultado de quatro séculos de selecção e domesticação. Uma ratazana doméstica saudável, comprada numa loja ou a um criador responsável, não representa maior risco para a nossa saúde que outro animal de estimação.

Dediquei os nove anos seguintes a compilar e traduzir informação no meu site Ratz fórum, determinada a desmistificar o preconceito. Cheguei a fazer criação, quando tinha disponibilidade e condições. E porque, infelizmente, a esperança de vida delas é muito pequena (entre dois a três anos), tive dezenas de “ratz”. Cada uma, um amigo inesquecível.

Ilustração de Mariana Flores

E com elas aprendi:
1. Como são lindas: há ratazanas de todas as cores. Há os dumbo, que têm as orelhas maiores; os hairless, que não têm pelo; e os rex, que têm o pelo encaracolado, por exemplo;

2. Como são únicas: há os introvertidos e tímidos; os exploradores curiosos; os preguiçosos que comem e dormem; os corajosos que não temem cães ou gatos; os companheiros que querem estar sempre por perto do dono, no ombro ou no colo;

3. Como ensinam responsabilidade: ter uma ratazana doméstica é fácil e prático, pois são animais pequenos e silenciosos, ideais para um apartamento, mas não deixam de precisar de limpeza regular da gaiola, cuidados veterinários e atenção diária;

4. Como não se abandona: há animais com os quais criamos laços maiores. Das dezenas de “ratz” que tive, apenas cinco foram verdadeiramente especiais, os meus melhores amigos e ratos do coração. Mas todas eram importantes para o bem estar do grupo: nenhum animal é dispensável.

5. Como ensinam sobre tolerância: ter uma ratazana é saber ver para além do aparente. É conseguir esquecer uma ideia pré-concebida e olhar para um animal como se fosse a primeira vez, vendo-o por aquilo que é na verdade.

Agora, tenho dois “rapazes”, o Murphy e o Newton. O Murphy é um dumbo gorducho de cor mink (castanho claro), é curioso e gosta de cócegas. Dá beijinhos e adora explorar a casa quando anda solto.

O Newton, branco com malhas de um tom que se chama pearl, é medroso, mas acredito que com o tempo se torne mais confiante. Tal como também tenho esperança que um dia as pessoas consigam ver as ratazanas domésticas como os roedores inteligentes, carismáticos e únicos que são.

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