É um erro comum pensar que não existe vida em Chernobyl, defendem os dois fundadores da Clean Futures Fund, uma organização norte-americana sem fins lucrativos que dá apoio internacional a trabalhadores e comunidades afectadas por acidentes industriais. O fundo identifica e financia projectos humanitários e, de momento, os esforços estão focados no local “do maior desastre nuclear do mundo”. Não para os trabalhadores, pelo menos directamente, mas para outra população: a dos cães vadios que deambulam pela zona à procura de abrigo e comida.

“Há 3500 trabalhadores que, todos os dias, trabalham no meio de cerca de 1000 cães vadios”, existindo cerca de 250 apenas na zona da central. Segundo o site da organização, os cães podem ser encontrados em qualquer zona de Chernobyl, incluindo as zonas controladas no interior da antiga central.

Como resposta ao acidente, em 1986, uma zona de 30 quilómetros foi evacuada e os 120 000 habitantes deixaram tudo o que não podiam carregar para trás. Isto incluía os animais de companhia, que foram assim abandonados. No livro Chernobyl Prayer, a Prémio Nobel da Literatura 2015 Svetlana Alexievich, entrevistou sobreviventes do desastre que relatavam como “os cães choravam, a tentar entrar nos autocarros”. “Continuaram a correr atrás dos autocarros durante muito tempo”, cita o The Guardian,

Clean Futures Fund

Aos soldados da antiga União Soviética foi ordenado que matassem a tiro todos os animais em Pripyat, mas revelou-se impossível reunir todos os cães das pequenas aldeias que se espalhavam pela zona de exclusão. Estes antigos animais de estimação acabaram por migrar para a antiga central nuclear, onde os seus descendentes continuam a viver.

“Por desespero e restrições económicas, há algum tempo a central contratou alguém para matar os cães”, escrevem, adiantando que “o empregado acabou por recusar-se a fazê-lo”.

E é essa a zona de acção da CFF até 2019, pensada depois dos dois co-fundadores da organização visitarem Chernobyl e tomarem conhecimento “das dimensões da população de cães” que vivem na zona da central. “Só na capital ucraniana, Kiev, é estimado que existam 30 000 cães e gatos vadios, mas os de Chernobyl são diferentes”, defendem. “Estes animais fugiram de lobos, são malnutridos, estão expostos à raiva e estão desesperados por atenção médica, incluindo vacinação contra a raiva, o parvovírus e hepatites”, escrevem, no site. Além de terem de suportar o Inverno gelado da Ucrânia, também transportam níveis elevados de radioactividade no pêlo e têm uma esperança média de vida baixa, conta o jornal britânico. Apesar de quase não serem encontrados cães com mais de cinco anos, a população continua a aumentar.

“Acho que nunca vamos conseguir ter zero cães na zona de exclusão, mas o que queremos é conseguir reduzir a população para que os possamos alimentar e cuidar deles a longo prazo”, diz ao Guardian Lucas Hixson, um dos responsáveis pelo fundo. Durante o período que os voluntários passaram no local também se aperceberam de que as lesões são muito comuns, desde feridas provocadas por lutas com outros cães ou lobos, atropelamentos ou úlceras. A administração da central nuclear forneceu espaços para os dois fundadores converterem em hospitais veterinários temporários e outras áreas para reter e monitorizar os animais após a cirurgia.

Em 2017, a CFF reuniu fundos monetários e parcerias com universidades para levar veterinários até à central. O objectivo principal é administrar vacinas e esterilizar os animais.

Nos últimos dez anos, com o ressurgimento do turismo na zona de exclusão, o contacto entre animais e humanos tem aumentado ainda mais – o que nem sempre é benéfico, “devido às doenças que os cães podem transmitir aos visitantes”, alertam.

A campanha reuniu, até agora, cerca de 36 000 euros e continua activa no GoFundMe. Podes seguir as actualizações através da #dogsofChernobyl.

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