Cátia Correia Caeiro é uma investigadora portuguesa a trabalhar em Inglaterra na área do comportamento animal 

Quando falamos com outra pessoa, quase toda a nossa atenção se concentra na sua face. É lá que encontramos informações muito úteis como, por exemplo, qual a idade desse indivíduo, se é atraente ou, ainda, o que quer comunicar ou o que está a sentir.

As faces são tão importantes que o nosso cérebro possui um mecanismo automático inato para detecção e processamento de faces. Este mecanismo está também presente quando interagimos com outras espécies, incluindo os nossos animais de estimação: cães, gatos, cavalos, roedores, etc. E, como todos nós sabemos, os nossos animais são bastante expressivos. Os cães e os gatos são capazes de produzir expressões faciais que comunicam informações e emoções.

Porquê investigar expressões faciais em animais?

Os humanos atribuem, automaticamente, um significado ou uma emoção às expressões faciais de qualquer espécie, como se fossem humanos, de uma forma rápida e global (chamada também gestalt). Ou seja, olhar para um cão, um gato ou uma pessoa activa a mesma cadeia de processos para ler expressões faciais, o que é problemático se as expressões faciais tiverem significados diferentes em cada espécie.

Quando atribuímos emoções humanas ou características humanas aos animais, estamos a cometer antropomorfismo. Se, por um lado, este fenómeno pode ajudar a criar empatia entre pessoas e animais, por outro poderá causar mal entendidos e juízos precipitados sobre a situação, que, por sua vez, poderão ter consequências negativas não só para o bem estar dos nossos animais, mas também para a relação entre os donos e os seus animais.

Um dos exemplos que ilustra este problema é o do guilty dog, ou “cão com cara de culpado”, que todos os donos têm a certeza que já viram nos seus cães, após estes terem roído os sapatos ou feito algo proibido.

Este é o mesmo comportamento que se tornou num vídeo viral de Youtube do famoso labrador retriever Denver. Dada a prevalência deste comportamento, uma equipa de cientistas decidiu aprofundar o fenómeno viral e criou uma experiência controlada para testar se, de facto, os cães apresentavam esta típica cara de culpado por terem feito uma “asneira”.

Os investigadores convidaram cães e donos a participar nesta experiência. Pediram aos donos para mostrar um biscoito aos cães, dizer-lhes que não poderiam comê-lo e, de seguida, sair da sala deixando os cães sozinhos com o investigador.

Depois, os investigadores fizeram o teste: em metade dos cães, os investigadores deram o biscoito ao cão sem o dono saber; nos restantes, os investigadores não deram o biscoito ao cão.

No entanto, quando os donos voltaram a entrar na sala, os investigadores disseram a todos os donos que os seus cães tinham desobedecido à ordem que eles lhes tinham dado, e que o cão tinha comido o biscoito. De seguida, pediram para que os donos se mostrassem um pouco zangados ou desapontados com os seus cães.

Os resultados foram surpreendentes. Todos os cães — os que não tinham comido o biscoito e os “desobedientes” — mostraram os mesmos sinais de “cão culpado”, comprovando que esta resposta não estava relacionada com a culpa de ter feito algo proibido, mas sim porque os cães ficavam com medo da reacção dos donos.

Este estudo demonstrou claramente que as pessoas interpretam o comportamento dos seus cães de forma antropomórfica e não são capazes de perceber o que os seus cães estão de facto a tentar dizer-lhes.

Como podemos perceber melhor os nossos animais?

Uma das soluções para este problema surgiu com a criação de sistemas para codificação de expressões faciais, desenvolvidos a partir do sistema original para humanos, chamado FACS (acrónimo do inglês: Facial Action Coding System). Por exemplo, em humanos, o levantar de uma sobrancelha é accionado pelo músculo frontalis que cobre a testa e corresponde à Unidade de Acção 1 (ou AU1 do inglês Action Unit).

O conjunto destes códigos é então usado para medir de forma rigorosa os movimentos da face, com base na sua anatomia, em vez do significado, evitando antropomorfismos. O mesmo sistema foi desenvolvido para cães e gatos  e está a ser usado para tentar perceber como os nossos animais comunicam connosco e expressam as suas emoções.

Resultados recentes indicam que, tal como o estudo do cão culpado, as expressões faciais dos cães e gatos são extremamente diferentes das nossas. Então, para desvendares o teu animal de estimação, está atento aos seguintes sinais: cães felizes apresentam uma boca bastante aberta, cães com medo começam a arfar, gatos felizes tendem a virar a cabeça para a direita, e gatos assustados piscam os olhos.

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