Mariana Flores é ilustradora e mora em Leiria com os seus animais e os seus livros

Nós temos dois gatos, o Mephis, um gato cinzento de seis quilogramas de mimo e safadeza, e a Niki, uma gata tricolor estrábica e cusca. Ambos estão esterilizados e não saem à rua. No entanto, uma vez o gato conseguiu meter-se por uma fresta da janela, caiu da altura de um primeiro andar e esmurrou o nariz. Outra vez, demos um jantar cá em casa e, quando fomos a dar por ela, os convidados tinham deixado a porta da rua aberta para ir fumar. E se os gatos fugiam?

Diariamente são partilhadas na Internet centenas de fotografias de animais perdidos ou abandonados. A situação conseguiu tornar-se ainda pior no ano passado, com a tragédia dos fogos. O que nos surpreendeu foi ver que alguns dos animais perdidos tinham chip, mas sem que este tivesse qualquer informação associada, tornando impossível contactar os donos.

Os nossos gatos usam coleiras com chapas de identificação, mas, porque estas podem perder-se, também têm chip. Resolvi confirmar se este tinha as devidas informações associadas e contactei, como aconselhado pelas associações animais, o SICAFE (Sistema de Identificação de Canídeos e Felinos). Surpreendida, descubro que nenhum dos nossos gatos tinha quaisquer informações associadas ao chip.

Quando há um ano pedimos ao veterinário para colocar um chip nos nossos dois gatos, ouvimos a seguinte pergunta:

– Mas sabem que não é obrigatório?

Sim, sabemos. Mas queremos pôr na mesma.

Pagámos pelo procedimento e recebemos uma folha de registo do SIRA (Sistema de Identificação e Recuperação Animal), ficando descansados em como, se os nossos animais se perdessem, poderiam ser identificados e devolvidos desta forma.

Ficamos agora a saber que não existe apenas uma base de dados para animais de estimação, mas duas, o SIRA e o SICAFE. E que os nossos animais não estavam registados na segunda. Não compreendo o porquê desta divisão. Para pagarmos a duas entidades?

Porque não criar um sistema nacional para registar os nossos animais?

A informação no site não era clara, pelo que contactei a entidade por email para saber como podia proceder a este registo, vindo a descobrir que deve ser feito na junta de freguesia.

A conversa que se seguiu foi tão caricata, todo o processo foi tão ridículo, que achei que merecia ser contado. As funcionárias da junta nunca tinham efectuado o registo de um gato. Uma delas começou a inserir os dados no computador, enquanto a outra nos bombardeava com perguntas:

— Sabe que o chip não é obrigatório nos gatos?

— Sim, sei, mas quero garantir a segurança dos meus animais.

— Mas olhe que é ilegal deixá-los andar na rua!

— Eles não andam na rua. Só queremos prevenir uma situação em que, por algum motivo, se percam, o que, por muitos cuidados que se tenha, acontece.

— Os gatos precisam de ter a vacina da raiva para serem registados.

— Eles têm outras vacinas, recomendadas pelo veterinário, mas a da raiva não costuma ser aplicada a gatos…

— Os veterinários não sabem as “legalidades”. Mas vou ligar ao SICAFE para confirmar. E sabe que assim, se o seu gato provocar um acidente de carro, é chamada a cobrir as despesas?

— Sim, mas a minha intenção como dona de animais não é fugir a quaisquer responsabilidades… Se o meu animal provocar um acidente é claro que quero ser chamada. E não acha que se todos fizessem assim seríamos melhores cidadãos?

 

A este ponto eu já estava a ficar bastante irritada e a fazer um esforço por não explodir. A funcionária fez a chamada e foi isto que se ouviu:

— Sim, eles sabem que não é obrigatório e querem na mesma. Ai não é preciso? Pronto, obrigada.

E assim lá conseguimos que os nossos gatos ficassem registados nas duas bases de dados. Algo que não fizemos mais cedo porque não fomos informados, no veterinário, de que deveria ser feito, e que não nos custou mais que meia dúzia de trocos e uma hora das nossas vidas.

O ideal é que nunca venha a ser preciso. Mas, se alguma coisa acontecer, pode fazer toda a diferença. E isso devia ser algo compreendido e apoiado pelos veterinários e entidades legisladoras, em vez do constante “mas sabe que não é obrigatório?”

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