Ana Fernandes é presidente da Associação Zoófila Portuguesa

Quando era criança, bebia leite e comia gelados Epá porque “tinham leite e eram muito bons para a saúde” e, portanto, “para um crescimento saudável”. Ou, pelo menos, assim diziam os pais e a comunicação social.

Quem não se lembra do esclarecimento que era dado à população sobre os grandes benefícios do leite, mesmo que acompanhado de quantidades inadmissíveis de açúcar, como era o caso dos gelados?

Consumir ou não consumir leite é uma decisão individual e, felizmente, hoje, com uma maior democratização do acesso à informação, é mais fácil agir em consciência, mais informados. Ao contrário do que se quer fazer crer, hoje temos mais informação, mais consciência ambiental e consciência sobre os maus tratos praticados aos animais para que uma criança beba um copo de leite de origem animal.

Quando a indústria vem dizer que o declínio do consumo de leite na última década, observado por toda a Europa, se deve ao facto de os consumidores estarem menos informados, essa afirmação é falsa, como muito do que se diz sobre este assunto.

O meu filho não bebe leite, para horror da avó. É muito provável que os meus netos não venham a beber leite, para grande satisfação da avó. Esta mudança está em curso: e será muito difícil invertê-la.

A indústria dos lacticínios tem uma grande oportunidade de se transformar. Pode, naturalmente, apostar na diversidade, pode continuar a vender leite, mas leite vegetal.

Hoje existe uma grande oportunidade de crescimento nos produtos de origem vegetal. Não se compreende que se insista na estagnação e que venha dizer que a culpa é dos consumidores que estão desinformados.

As questões ambientais são cada vez mais relevantes no momento da escolha, e sejamos sinceros, é incontestável que a produção de leite tem um impacto significativo na emissão de CO₂.

Um exemplo paradigmático da importância da conversão das indústrias poluentes em oportunidades sustentáveis ambientalmente está nos Açores. Haverá dúvidas de que o futuro bem-sucedido dos Açores só pode ser na promoção de um ecossistema cada vez mais limpo e saudável?

Por outro lado, sabemos que a produção de leite é conseguida através de um sofrimento gigante das vacas e dos vitelos. Basta uma pequena visão da realidade para arrasar qualquer imagem imaculada que todos os anúncios sobre o leite querem fazer crer.

Agora que estamos todos cada vez mais informados, o decréscimo do consumo de leite de origem animal vai continuar. Sabendo isto, as empresas têm a grande oportunidade de pensar em mudar, diversificando a oferta a ajustando-se à procura, regra elementar de uma qualquer economia.

Para os gelados, já temos opções de produtos elaborados com matéria de origem vegetal, que fazem igualmente mal à saúde pela quantidade de açúcar que têm, mas essa é outra história. E uma outra luta.

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