Susana Santos é professora e comissária da Assembleia Plurimunicipal do PAN Algarve

Num sábado normalíssimo como tantos outros, decidi vestir os meus cómodos jeans e calçar as sapatilhas “do dia de descanso aos joanetes” e lá fui eu fazer as compras da semana.

Quem defende causas afincadamente sabe bem que o nosso ouvido parece sintonizado para captar as conversas que nos rodeiam sobre o assunto que tanto nos inquieta a alma. Ao passar num dos caóticos corredores do supermercado, quando me preparo para comprar os biscoitos de marca “XPTO” que os meus patudos tanto apreciam, deparo-me com uma conversa na qual duas cidadãs trocavam lamúrias quanto aos gastos que têm tido com os seus gatos. Relembrei como a minha carteira também já apresentou um sorriso bastante amarelo (para não mencionar aflição) na hora de efectuar pagamentos veterinários.

Quem decide adoptar um animal tem de ter consciência que existem custos fixos e incontornáveis a suportar, já que dizem respeito a um conjunto mínimo de procedimentos indispensáveis ao bem-estar do animal. Decidi então que ia tentar perceber quanto custa ter um animal de estimação em Portugal.

Arregacei mangas e mergulhei em várias pesquisas, orçamentos, opiniões e constatei que os valores que serão apresentados são muito relativos. Vejamos: um animal alimentado toda a vida com uma ração mais em conta, porém de gama mais baixa em termos nutritivos, terá mais tendência a desenvolver futuramente determinadas patologias.

Quanto à prestação de cuidados médico veterinários, e como refere a Associação Portuguesa de Médicos Veterinários Especialistas em Animais de Companhia (APMVEAC), “no momento de avaliar/comparar os custos dos vários procedimentos médico-veterinários, o mais relevante é que seja tido em conta o cumprimento de boas práticas e procedimentos que garantam a segurança, cuidado e bem-estar animal, e o nível técnico-científico do prestador dos cuidados de saúde”.  Todos os cuidados relativos ao animal terão de ter ainda em atenção a variação de factores como a espécie, idade, estado de saúde, estilo de vida e o meio ambiente no qual o animal de estimação está inserido.

Quanto à vacinação mais básica: nos canídeos, os custos das vacinas associadas à parvovirose, esgana, hepatite canina e leptospirose podem variar entre 20-28 euros e 30-36 euros, caso inclua a vacina da raiva. De notar que a vacina da raiva deve ser aplicada a cada três anos e quando administrada isoladamente poderá rondar custos entre os 20 e os 30 euros. Caso se opte por recorrer a um veterinário municipal apenas será administrada a vacina contra a raiva e os custos desta ficarão bastante mais em conta, no valor de cinco euros, mais um euro para o Boletim de Vacinas.

Nos felídeos, os custos das vacinas associadas da panleucopenia felina, herpervirose felina e calicivirose podem variar entre os 18-28 euros e os 23-42,50 euros, caso inclua a vacina da leucemia felina.

Já quanto à esterilização: em cães machos até 10 quilogramas, o custo varia entre 70 e 95 euros e, até aos 40 quilogramas, entre os 105-165 euros. Em fêmeas até 10 quilogramas, o custo varia dos 90 aos 150 euros e, até 40 quilogramas, entre os 140-250 euros. Em gatos machos, o custo varia dos 35 aos 50 euros; em fêmeas,  entre os 60 e os 120 euros.

Na aplicação do microchip, podes contar gastar entre os 13  (quando aplicado pelo veterinário municipal) e 20 euros (veterinário particular). Soma-se o desparasitante interno, cujo valor oscila entre os dois e os 12 euros, administrado a cada três meses (quatro vezes ao ano).

No caso do desparasitante externo, existem inúmeras marcas e formatos, pelo que optei por averiguar o preço das coleiras de marca Scalibur (duração de seis meses), com preços entre os 19,50 e os 21 euros, e as Seresto (duração de oito meses), com preços entre os 30 e os 36 euros.

Os estudos dos custos da ração foram feitos a uma gama de valor nutricional (e custo mais baixo) e outra mais alta, para animais de 10 a 40 quilogramas. Assim, os custos em alimentação, por mês, podem oscilar, aproximadamente, entre os 5,10-14,40 euros em animais até 10 quilogramas e os 17,80-42,10 em animais até 40 quilos (excluindo rações específicas).

Resta ainda o registo na junta de freguesia. O valor varia muito mediante a zona do país e os seus valores rondam normalmente entre 7 a 15 euros.

Concluo, portanto, que estes valores podem ser muito dissuasores na hora de adoptar um animal de estimação, tendo em conta o rendimento mensal médio da maioria das famílias portuguesas. Os custos são elevados e, tratando-se de um acto responsável, não podemos limitar os custos na hora de partilhar as economias com quem nos dedica inteiramente a sua vida. Infelizmente, alguns casos de abandono poderão estar associados a casos de insuficiência económica. Por esse mesmo motivo, deixo a questão: para quando um hospital público veterinário?

Porque não criar um sistema nacional para registar os nossos animais?

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