Susana Santos é professora e comissária da Assembleia Plurimunicipal do PAN Algarve

Recentemente foi exibido na televisão portuguesa um excelente documentário intitulado A Face Oculta do Transporte de Animais e que condenou os mais sensíveis a incessantes lágrimas, muitos lenços de papel e uma noite sem dormir. De salientar que tal facto ficará a anos-luz da angustiante realidade. Creio firmemente que as imagens captadas pela retina dos activistas defensores dos direitos dos animais, face a tal tragédia, assombrarão a sua mente até ao final dos seus dias, semelhante ao trauma vivido pelos militares no pós-guerra. Como pode alguém permanecer mentalmente são após presenciar, de forma nua e crua, tal sofrimento sem poder impedir a sua concretização, impotentes perante o carácter economicista e ideológico das massas humanas?

É absolutamente aterrador ver o sofrimento a que estes animais estão sujeitos durante as viagens. As imagens são reveladoras e não deixam sombra para dúvidas: temperaturas altíssimas, muitas vezes acima dos 40 graus Celsius apesar das ventoinhas na potência máxima, a água extingue-se ao fim de apenas alguns quilómetros, subjugados a filas de trânsito intermináveis debaixo de um calor tórrido e abrasador, o espaço recôndito onde são acondicionados. Todas estas condições miseráveis sentenciam os mais vulneráveis a mazelas físicas, por vezes tão graves que resultam numa morte lenta e agonizante.

Mas, então, porquê transportar estes animais ainda vivos?

A razão é tão simples quanto cruel. Porque, chegando vivos, os animais representam um custo muito menor: utilizar transportes devidamente refrigerados, quilómetros a fio, para países dentro da União Europeia ou outros, como Turquia, Israel, etc., é extremamente dispendioso. Além de que, deste modo, podem proceder à matança do animal segundo os padrões ideológicos do seu país, rituais bastante questionáveis, diga-se, sem utilização de qualquer tipo de atordoamento prévio ou anestesia, a sangue frio, métodos arcaicos, bárbaros e cruéis.

Uma comparação utilizada no documentário mostrou-se bastante elucidativa da forma como os animais são encarados aquando do transporte: “É equiparável à deslocação de carros; um carro de fórmula 1 que será utilizado em corridas deverá chegar ao seu destino em óptimas condições; já nos carros que se destinam à sucata, pouco ou nada interessa o estado em que chegam”.

Quando já se encontra devidamente demonstrado, através da eloquente Declaração de Cambridge, que os animais são seres sencientes, experimentando sentimentos idênticos aos nossos, como podem ainda ocorrer situações destas em pleno século XXI? Como pode Portugal, esta “nação valente e imortal” pela qual já tantas vezes morremos e renascemos erguendo orgulhosamente a bandeira, em prol de valores maiores e causas nobres, compactuar em silêncio com este tipo de atrocidades?

Quem olhar, verdadeiramente, para os olhos daqueles pobres animais poderá atestar que na profundidade daquele olhar vazio, letárgico e praticamente dilacerado pela maldade experimentada já não restam forças e muito menos esperança.

Absolutamente ninguém, no uso das suas faculdades mentais, poderá ficar alheio a estes cenários grotescos. E que estas imagens sirvam para isso mesmo: gerar uma consciência social que se erga e manifeste a uma só voz a profunda desaprovação e repulsa por tanta desumanidade praticada pela espécie dita inteligente.

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