Manuel Raposo é finalista de Medicina Veterinária na U. Évora. Apaixonado pelos animais no geral e pelas ovelhinhas em particular

Com a actual e exagerada afluência de médicos veterinários ao mercado de trabalho nacional e internacional, e com o plano de estudos e métodos de ensino desactualizados/desadequados que vemos em tantas universidades, começam, infelizmente, a ser cada vez mais comuns as más práticas e os erros de diagnóstico e terapêuticos que vemos serem feitos, tanto na clínica de animais de companhia, como no caso dos animais de produção.

Se estivermos atentos, não raras vezes seremos capazes de ver diagnósticos diferenciais confundidos, a realização de exames complementares inúteis ou pouco necessários ou mesmo terapias completamente desajustadas ao animal, quer seja pelo fármaco, dose, frequência de administração ou via usada.

O veterinário é um ser humano e, como tal, é apenas natural que cometa erros e que os mesmos, por vezes, possam ser graves: na prática clínica, estamos sempre a lidar com vidas e existem diversas doenças e patologias cujo diagnóstico e sinais clínicos são extremamente difíceis. Mesmo para os profissionais mais experientes. O mesmo se aplica a alguns exames complementares cuja interpretação de resultados levará potencialmente a dúvidas e/ou a prognósticos duvidosos.

Mas temos de separar as coisas e deixar algo bem claro: nem todos os erros clínicos ocorrem pelo mesmo motivo. E é aqui que se encontra o cerne da questão. Lamentavelmente, nos dias que correm, podemos fazer uma divisão global dos equívocos clínicos que acontecem diariamente em medicina veterinária.

Por um lado, temos os erros “inocentes” que, na esmagadora maioria dos casos, ocorrem devido a falta de experiência e pouca prática ao lidar com determinado tipo de doença ou patologia em espécie/raça/idade/género específico. Não estamos habituados a ver e tratar aquilo e temos mais dificuldade ao escolher o método de diagnóstico e/ou a melhor opção terapêutica. É certo e natural.

Provavelmente falhamos o diagnóstico e propomos uma terapia desadequada ao animal que, ao fim de mais ou menos tempo, não só não apresenta melhorias como, eventualmente, fica em pior condição ou chega mesmo a morrer.

Apesar de tudo, eis o que acontece a seguir: o médico veterinário sente um misto de tristeza, confusão, impotência, frustração e preocupação e decide investigar mais. Revê a história clínica e tudo o que fez ao animal, volta a analisar resultados obtidos em exames físicos e complementares, faz uma extensa pesquisa bibliográfica, consulta colegas mais experientes e tenta perceber onde errou e o que poderia ter feito para solucionar bem o caso.

Veterinário, o novo “médico de família”

No fim, ele aprendeu com o(s) seu(s) erro(s) e extraiu conhecimentos da experiência que evitarão que, no futuro, um caso semelhante volte a ter o mesmo final. A verdadeira definição de “aprender com os erros”.

Se todos os erros acontecessem nestas circunstâncias poderíamos admitir que estaríamos perante uma medicina veterinária em constante e infinita evolução, sempre a melhorar e a crescer. Mas isso seria num mundo utópico e, infelizmente, bem distante da actual realidade.

Para além dos erros que derivam da falta de experiência e dos quais advém aprendizagem e novas atitudes futuras, há ainda um outro tipo de erro cometido por um outro tipo de “veterinário”.

A situação inicial é exactamente a mesma: não conseguimos chegar ao diagnóstico ou erramos no mesmo e o animal não melhora e eventualmente piora/morre.

O que acontece a seguir é bastante diferente: o “veterinário” que não quer saber não fica triste ou preocupado com os resultados que atingiu e isto pode ser explicado por falta de profissionalismo e boas práticas éticas/deontológicas que pautam o seu raciocínio e exercício clínico.

Ele não se preocupa com a saúde dos animais e  das pessoas ou com o bem-estar dos pacientes ou a satisfação dos tutores.

Regra geral, este tipo de “veterinário” (desculpem, não consigo evitar as aspas) traça um plano de diagnóstico de acordo com o que for mais lucrativo para ele através da realização de exames desnecessários ou de análises inúteis no contexto do caso clínico em questão.

O tratamento segue a mesma lógica e é feito escolhendo os fármacos mais caros e as rações de gama mais alta numa terapia que se faz o mais trabalhosa e prolongada possível dentro do que o tutor se dispõe a pagar.

A frustração por não se identificar com a profissão aliada à ganância de angariar mais umas centenas ao fim do mês resultam, no fundo, no sofrimento animal que mancha a profissão e deixa toda a classe na mão.

É, ao fim ao cabo, um problema ético que tem vindo a crescer nos últimos anos.

Está nas mãos dos tutores saber escolher o profissional responsável pela saúde do seu animal de estimação e exigir todo o profissionalismo do mesmo. Está nas mãos da Ordem punir devidamente quem suja o nome da medicina veterinária, seja em que contexto for. Está nas mãos de todos — alunos, docentes, médicos veterinários e tutores — lutarem por boas práticas clínicas e por uma constante e enriquecedora aprendizagem pelo bem da profissão e pelo bem dos animais.

Hoje sou aluno, mas um dia serei o médico veterinário que não sabe e não o “veterinário” que não quer saber.

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