Um estudo internacional, liderado pelo Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO-InBIO), do Porto, mostra que a domesticação teve “um efeito profundo” no cérebro dos coelhos, tornando-os menos susceptíveis ao medo e mais mansos.

“Os coelhos domésticos são, em média, maiores e mais pesados do que os coelhos selvagens. O actual estudo demonstra que o cérebro dos coelhos domésticos tem, contudo, um volume proporcionalmente menor do que o dos coelhos selvagens”, lê-se, num comunicado do CIBIO-InBIO.

Os resultados obtidos mostram igualmente que os coelhos domésticos têm uma amígdala reduzida e um córtex pré-frontal medial aumentado, revelando ainda a existência de uma redução generalizada na massa branca.

Estas conclusões sugerem que o comportamento manso e com menor reacção de fuga por parte dos coelhos domésticos pode ser explicado pelo facto de terem a área cerebral envolvida no processamento do medo (amígdala) com menores dimensões e a zona implicada no controle do comportamento emocional (córtex pré-frontal medial) com maiores dimensões, refere a nota informativa.

Além disso, continua o comunicado, a quantidade reduzida de massa branca no cérebro dos coelhos domésticos sugere que estes têm um processamento de informação comprometido, o que pode ajudar a justificar as reacções mais lentas e calmas.

Dezasseis coelhos analisados

Para chegar a estes resultados, a equipa do KTH Royal Institute of Technology e da Uppsala University (Suécia), liderada pelos investigadores do CIBIO-InBIO Miguel Carneiro, Sandra Afonso, José António Blanco-Aguiar e Nuno Ferrand, analisou oito coelhos selvagens e oito coelhos domésticos, criados nas mesmas condições.

De acordo com o investigador Miguel Carneiro, o grupo recorreu à ressonância magnética de alta resolução para verificar se as alterações genéticas verificadas nos coelhos resultavam em diferenças na morfologia cerebral.

Este foi “o primeiro estudo sobre domesticação animal a explorar em profundidade alterações na morfologia cerebral”, demonstrando “que as diferenças genéticas associadas à domesticação, previamente observadas, terão levado à reestruturação do cérebro e, consequentemente, a todo um repertório de mudança comportamental”, indicou Miguel Carneiro.

Nuno Ferrand considerou que estas conclusões poderão ter “grande importância” para a crescente compreensão da domesticação e para o “entendimento básico de como a morfologia cerebral influencia comportamentos complexos, como a resposta ao medo”.

Num estudo anterior, a equipa já tinha demonstrado que existem “diferenças genéticas entre coelhos domésticos e selvagens, principalmente nos genes relacionados com o desenvolvimento do cérebro”, acrescentou.

O estudo deu origem a um artigo publicado esta terça-feira na revista científica Proceedings of National Academy of Sciences.

 

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