Perante a falta de um canil municipal em Aveiro, o acolhimento dos animais é feito por associações, onde o espaço vai rareando. O município aguarda o licenciamento de um equipamento, mas admite que não haverá resposta para todos os casos.

O presidente da Câmara de Aveiro, Ribau Esteves, defende que a intenção da lei que proíbe o abate de animais nos canis municipais foi boa, mas não vai resolver o problema dos animais abandonados.

O diploma foi aprovado no parlamento em 2016, mas foi então dado um período transitório de dois anos para que os municípios se preparassem. O prazo termina este mês, com a proibição dos abates a ser aplicada a partir do dia 23.

“Não é viável construir canis com capacidade suficiente para gerir os animais que são abandonados, sem os matarem. Podemos fazer um canil para 300 ou 400 animais que vai ficar cheio, porque um cão tem um horizonte de vida média de 14 anos”, antevê o autarca.

O problema dos animais errantes não tem tido resposta no município a que preside desde que o canil municipal foi fechado em 2012 pela Direcção-Geral de Veterinária, por falta de condições. A solução encontrada foi entregar os animais no canil de Ílhavo, mas o município vizinho, a partir de certa altura, passou a recusar mais animais por falta de capacidade.

Acusado de insensibilidade e de não dar prioridade à questão, Ribau Esteves foi confrontado com críticas da oposição e ‘brindado’ com uma manifestação em Maio, à porta da Assembleia Municipal, exigindo o “cumprimento da legislação na área animal”. A iniciativa foi organizada pelo movimento informal “Mobilização de Cidadãos Por um Canil Municipal em Aveiro”.

A construção de um novo canil chegou a ser iniciada em Taboeira, mas a obra ficou parada no período de crise financeira da autarquia. Ribau Esteves quer agora aproveitar o que está edificado para ali fazer o pólo de Aveiro de um canil intermunicipal, já que o município integra o projecto da Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro para a criação do Centro Intermunicipal de Recolha Oficial de Animais, que prevê a criação de três polos: Aveiro, Águeda e Ovar.

“É evidente que os vamos fazer. Só o pólo de Aveiro vai albergar 400 animais e custa cerca de dois milhões de euros, mas se as pessoas continuarem a abandonar os animais o canil depressa ficará lotado”, diz. Segundo o presidente da Câmara, estão concluídos os estudos prévios e o futuro canil aguarda o licenciamento ou parecer vinculativo da Direcção-Geral de Veterinária, para a autarquia terminar o projecto de execução e lançar o concurso público.

“A nossa perspectiva é terminar este trabalho, lançar o concurso e estar em obra no próximo ano. No entanto, nós avançámos com uma grande campanha de sensibilização dos cidadãos para que não abandonem os animais, uma campanha de esterilização para evitar a reprodução, uma campanha de adopção e uma campanha de licenciamento dos animais de companhia, porque a maior parte deles que estão em casa são ilegais”, enumera.

Em relação aos cães errantes, actualmente vão valendo as associações sem fins lucrativos que se dedicam aos animais, mas também estas estão a chegar ao limite, como dá conta Tomás Casal, da “Afectu“.

“As associações como a nossa estão a fazer o papel que devia ser feito pelo município e temos as boxes lotadas. Estão aqui 80 cães e torna-se difícil encaixar os que nos chegam”, descreve.

Por vezes as pessoas pedem ajuda à associação, outras alertam para situações de risco de cães sem dono que andam pela rua e a “Afectu” tenta resgatá-los, e há também quem atire os animais para as instalações da associação, por cima da vedação.

“Por vezes apanhamos a surpresa, quando chegamos aqui, de ver cães amarrados ao portão e no outro dia atiraram-nos dois cães por cima do muro”, relata Tomás Casal.

O dirigente da “Afectu” diz que “as leis mudam, mas a grande dificuldade está em mudar as mentalidades”. “As pessoas continuam a ver os animais como um brinquedo. Quando são pequeninos são muito bonitos, mas depois crescem e querem descartá-los, simplesmente porque largam pelo ou porque fazem xixi dentro de casa, ou até por ladrar. Qualquer desculpa serve para abandonar o animal e nós temos que combater isso”, critica.

Se o abandono tem um aumento sazonal no período de férias, as adopções, a que a “Afectu” também se dedica, são sobretudo por alturas do Natal, mas de cachorros. Muitos animais adultos permanecem na associação, que está em risco de ficar sem instalações, porque o espaço foi cedido gratuitamente, mas os proprietários querem o terreno de volta para construir e deram um prazo que está a expirar. “Estamos à procura de uma solução. Nem queremos pensar muito no que possa acontecer, porque estes animais não têm para onde ir…”, lamenta Tomás Casal.

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